Editorial – Gazeta da Manhã

Em seu pronunciamento no rádio e na TV na noite desta terça-feira (24), o presidente Jair Bolsonaro minimizou a crise que assola o planeta e disse que, na maioria das pessoas, a infecção pelo Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, não passará de uma “gripezinha”. Com sua fala inconsequente, o presidente contrariou absolutamente todos os especialistas e autoridades sanitárias do país, dizendo que não há motivo para preocupação.

Seguindo seu padrão já estabelecido de culpar a imprensa por todos os males do país, o presidente afirmou que os meios de comunicação estão espalhando uma sensação de “pavor” no Brasil. Bolsonaro também criticou o pedido para que as pessoas fiquem em casa, afirmando que o Brasil precisa voltar a normalidade. Em determinado trecho do pronunciamento, o presidente disse:

O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Por que fechar escolas?

O motivo para a paralisação das aulas, que o presidente desconhece o ignora, é muito simples de entender e já foi explicado por vários especialistas: as crianças demoram a manifestar os sintomas da doença. E, até que isso ocorra, caso estejam contaminadas, acabaram contaminando muitas outras pessoas, inclusive aquelas que podem pertencer ao grupo de risco (acima de 60 anos ou que já possuam alguma doença agravante).

Bolsonaro, que acha que é atleta e está no grupo de risco, já que tem 65 anos, também citou que:

Nossa vida tem que continuar. Os empregos devem ser mantidos. O sustento das famílias deve ser preservado.

Acreditamos nisso, presidente. E também sabemos que manter os empregos e o sustento da população é a obrigação do governo neste momento, como tem ocorrido em várias partes do mundo. O governo existe justamente para isso. Para garantir a segurança de seu povo perante os problemas, não para tratá-lo como idiota.

E, continuando como suas falas deploráveis, o presidente afirmou que:

Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércios e o confinamento em massa.

A única coisa que pode impedir que o cenário da Itália se repita no Brasil é o isolamento. Todos os especialistas sérios do Brasil e do mundo dizem isso. O vírus demora para ser notado e nosso país não tem os mesmos recursos que a China ou a Coreia do Sul, que testaram toda a população para isolar os que apresentassem os sintomas. É por isso que precisamos manter todos em casa. Porque os contaminados não carregam mensagens na testa e não manifestam os sinais até que já tenham contaminado muitas outras pessoas.

Segundo o presidente, “venceremos o vírus e nos orgulharemos”. Acreditamos nisso também, mas temos certeza absoluta que isso não terá nenhuma ligação com suas atitudes. Quem ajudará na derrota do Sars-Cov-2 (o vírus) e do Covid-19 (a doença que ele causa) serão as pessoas que permanecerão isoladas em suas casas, impedindo a infecção de atingir os níveis assustadores da Europa.

A cada dia que passa, Bolsonaro se mostra mais prejudicial para o Brasil. Não que as outras opções nos tempos de eleição fossem melhores, porque, de fato, não eram. Mas falta cérebro ao atual presidente, principalmente num momento de crise tão forte quanto este, demonstra que ele não está preparado para o cargo que ocupa. E nunca estará. Não em um país de proporções continentais como o Brasil.

E o que o presidente não parece ter entendido é que o coronavírus não diferencia idiotas de inteligentes: ele ataca todos. A questão é que só os idiotas criarão situações perfeitas para serem atacados. Enquanto isso, os inteligentes estarão bem quietinhos em suas casas, e não apertando a mão de outros idiotas.

A crise ainda não chegou no Brasil, mas ela não está longe. E, quando chegar, precisamos de pessoas sérias administrando este país. Pessoas com capacidade de discernir verdades de mentiras tiradas do WhatsApp da família. E essa, infelizmente, é uma habilidade que o nosso excelentíssimo presidente não possui.


Confira o pronunciamento abaixo, se tiver coragem: